Calné Oliveira

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Intimidade

O simples barulho de uma das chaves tentando alcançar a fechadura da porta extraiu de dentro da casa uma vozinha que misturava indagação e euforia. Aquele som lhe era familiar. - Papai?! Exclamou Pedro ao me ver aparecer no final do corredor.

Sorriso maroto, como quem quer esconder a alegria de me ver. Disfarça, anda em círculos, meio desengonçado. Finge que não está nem aí.

Nossos olhares se cruzam e se fixam ao mesmo tempo. Enquanto eu coloco a minha pasta sobre a mesa - sem desviar os olhos - ele pára, meio fisgado, hipnotizado pelo meu olhar.

Então ele, subitamente, estende seus bracinhos acompanhado de um sorriso aberto e cheio de intenções.

Esse é o nosso código. A ordem é sempre dada por ele. Daí para frente, se eu não corresponder exatamente com os movimentos a que ele está acostumado, dificilmente ele corresponderá e sairá para o abraço.

O que fazer? Só eu e ele sabemos, por um simples detalhe que costura toda a nossa vida: intimidade. Quase todos os dias acontecem da mesma forma. É como ver o mesmo filme inúmeras vezes e não deixar de se emocionar em nenhuma das cenas, mesmo sabendo o final.

Saber o que irá acontecer daí em diante, só nós dois sabemos. Assim como sabemos decodificar os olhares, os sorrisos, os convites, o recado. Sem dizer uma palavra, sabemos do que o outro precisa.

Meu filho não tem nada de substancial para me oferecer. Ele não faz nada pra mim, não me dá presentes materiais e não faz nada pensando em me agradar. No entanto, desejo estar todo o tempo ao lado dele, pelo que ele é e representa na minha vida. Por outro lado, ele me ama, não pelos presentes que dou para ele - porque ainda não entende o valor que têm os objetos - mas pela minha própria imagem e o que ela representa pra ele.

Mas vamos voltar de onde paramos. Você deve querer saber o final da história, que só eu e Pedro sabemos. Deve imaginar que eu me ajoelhei, para ficar quase da sua altura (ele tem só dois anos), abri os meus braços ele correu ao meu encontro se desfazendo em meu peito. Se imaginou assim, enganou-se. É só abrir os meus braços, que ele foge de mim. Todas às vezes ele me engana (ou pensa que me engana). Corre pela casa assim que abro os meus braços. O que ele gosta é que eu corra atrás dele, que o busque. Assim é mais divertido. E como ele gargalha.

Tudo isso acontece em pouco mais de um minuto, mas se estenderá por toda a nossa vida. Alguns minutos de intimidade perdida poderá fazer tudo se perder. Parafraseando o poeta: que dure, para que seja eterno.

Calné de Oliveira

Crônica para o livro Cenas do Cotidiano de Deus, RJ


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